Queria antes demais deixar um especial agradecimento a diversos amigos por terem lido e dado a sua opinião sobre este texto antes de o ter publicado (Inês Calçôa, Eliane Soares, Maria Ângela S. entre outros ...). Esta é somente a primeira parte, mais virão em breve... espero que gostem.
- Nehomanus -
Prólogo
Duas da manhã e Lynette ia já no quinto café do seu turno. Embora
detesta-se o seu horário não tinha hipótese: era o membro mais novo do
departamento. A recém doutora Lynette Hooper, ou simplesmente Lyn como já
começava a ser chamada pelos seus colegas mais próximos, dirigia-se à morgue a
fim de começar o segundo procedimento da noite, aparentemente algum idoso
encontrado morto, sem qualquer sinal de agressão externa. O mais provável é que tenha simplesmente morrido de velhice… -
pensou, acabando o resto do café. Mas a sua opinião não importava pois em breve
a autópsia iria revelar a verdadeira causa de morte. Antes de entrar na sala já
se tinha livrado do copo de café, respeitando a norma que proibia o consumo
quer de comida quer de bebida nesse espaço, com o objectivo de ser reconhecida
como boa profissional, ao contrário do doutor Adams, um dos de topo, que era
conhecido dentro do departamento por desrespeitar essa mesma regra, e talvez no
futuro tal viria a ser uma mais-valia a favor de Lyn, e quem sabe talvez esse
futuro poderia estar próximo. Todos sabiam que Paul, o chefe do departamento,
iria reformar-se em breve e a corrida pelo lugar já tinha começado. Embora
Lynette soubesse que não podia concorrer a esse posto, era certo que quem quer
que viesse a tornar-se o novo chefe iria deixar o anterior posto livre, e essa
seria uma oportunidade de ouro para Lyn subir na carreira.
- Acaba-se esta porcaria de turnos de noite… - tinha
reflectido assim que soube - … e poderei ter um horário decente, tal como uma
pessoa normal…
Deu consigo a olhar para o seu próximo paciente e ficou
surpresa. Tinham-lhe dito que se tratava de um idoso, mas assim que o viu
pareceu-lhe ainda mais velho que isso. O homem deitado na mesa de autópsia tinha
um aspecto mais seco e gasto do que alguma vez vira em alguém. Lyn só conseguia
imaginar que para alguém ter chegado a esse ponto teria de viver pelo menos
duas vidas, se não mais. É claro que isso era um disparate, raciocinou de
imediato, o mais provável é que este
velhote nunca cuidou devidamente do seu aspecto ao longo da sua vida, e que
tal se reflectia no seu aspecto pós-morte. Ou talvez fosse parte do motivo por
detrás da sua morte, contrapôs de imediato, sentido finalmente alguma
curiosidade pelo trabalho em que acabara de pegar.
- Curioso - disse para si mesma - … talvez esta noite não
venha ser assim tão má.
Assim que verificou todo o material, iniciou a gravação via
auricular. À medida que avançava a autópsia ia falando para o microfone, para
registar tudo no relatório mais tarde. Entretanto, começara a retirar algumas
amostras para o laboratório de análises. Durante esse tempo, Lyn aproveitou para
observar o corpo do idoso, para além de alguns sinais típicos de velhice como
verrugas, nada mais havia a observar à superfície, nada de arranhões ou
cicatrizes.
- Nenhum ferimento superficial, nem nenhum sinal de
hematomas no corpo… - reportou para o seu auricular - … não parece existir
evidência alguma de agressões... Deve ser
mais um caso de ataque cardíaco… - pensou para si mesma evitando comunicar
ao microfone qualquer suposição sem antes ter provas para apoiar a mesma - …
vou só tirar uma amostra de sangue do paciente antes de proceder à autópsia
propriamente dita. No entanto, nada em toda a sua experiência a preparara para
o que estava prestes a testemunhar.
Fiquem por perto para novos devaneios.
Um abraço.
Joaquim Oliveira, Maio de 2014