segunda-feira, 5 de maio de 2014

Nehomanus (Prólogo - parte1)

Queria antes demais deixar um especial agradecimento a diversos amigos por terem lido e dado a sua opinião sobre este texto antes de o ter publicado (Inês Calçôa, Eliane Soares, Maria Ângela S. entre outros ...). Esta é somente a primeira parte, mais virão em breve... espero que gostem.


- Nehomanus -

Prólogo

Duas da manhã e Lynette ia já no quinto café do seu turno. Embora detesta-se o seu horário não tinha hipótese: era o membro mais novo do departamento. A recém doutora Lynette Hooper, ou simplesmente Lyn como já começava a ser chamada pelos seus colegas mais próximos, dirigia-se à morgue a fim de começar o segundo procedimento da noite, aparentemente algum idoso encontrado morto, sem qualquer sinal de agressão externa. O mais provável é que tenha simplesmente morrido de velhice… - pensou, acabando o resto do café. Mas a sua opinião não importava pois em breve a autópsia iria revelar a verdadeira causa de morte. Antes de entrar na sala já se tinha livrado do copo de café, respeitando a norma que proibia o consumo quer de comida quer de bebida nesse espaço, com o objectivo de ser reconhecida como boa profissional, ao contrário do doutor Adams, um dos de topo, que era conhecido dentro do departamento por desrespeitar essa mesma regra, e talvez no futuro tal viria a ser uma mais-valia a favor de Lyn, e quem sabe talvez esse futuro poderia estar próximo. Todos sabiam que Paul, o chefe do departamento, iria reformar-se em breve e a corrida pelo lugar já tinha começado. Embora Lynette soubesse que não podia concorrer a esse posto, era certo que quem quer que viesse a tornar-se o novo chefe iria deixar o anterior posto livre, e essa seria uma oportunidade de ouro para Lyn subir na carreira.

- Acaba-se esta porcaria de turnos de noite… - tinha reflectido assim que soube - … e poderei ter um horário decente, tal como uma pessoa normal…

Deu consigo a olhar para o seu próximo paciente e ficou surpresa. Tinham-lhe dito que se tratava de um idoso, mas assim que o viu pareceu-lhe ainda mais velho que isso. O homem deitado na mesa de autópsia tinha um aspecto mais seco e gasto do que alguma vez vira em alguém. Lyn só conseguia imaginar que para alguém ter chegado a esse ponto teria de viver pelo menos duas vidas, se não mais. É claro que isso era um disparate, raciocinou de imediato, o mais provável é que este velhote nunca cuidou devidamente do seu aspecto ao longo da sua vida, e que tal se reflectia no seu aspecto pós-morte. Ou talvez fosse parte do motivo por detrás da sua morte, contrapôs de imediato, sentido finalmente alguma curiosidade pelo trabalho em que acabara de pegar.

- Curioso - disse para si mesma - … talvez esta noite não venha ser assim tão má.

Assim que verificou todo o material, iniciou a gravação via auricular. À medida que avançava a autópsia ia falando para o microfone, para registar tudo no relatório mais tarde. Entretanto, começara a retirar algumas amostras para o laboratório de análises. Durante esse tempo, Lyn aproveitou para observar o corpo do idoso, para além de alguns sinais típicos de velhice como verrugas, nada mais havia a observar à superfície, nada de arranhões ou cicatrizes.


- Nenhum ferimento superficial, nem nenhum sinal de hematomas no corpo… - reportou para o seu auricular - … não parece existir evidência alguma de agressões... Deve ser mais um caso de ataque cardíaco… - pensou para si mesma evitando comunicar ao microfone qualquer suposição sem antes ter provas para apoiar a mesma - … vou só tirar uma amostra de sangue do paciente antes de proceder à autópsia propriamente dita. No entanto, nada em toda a sua experiência a preparara para o que estava prestes a testemunhar.



Fiquem por perto para novos devaneios.
Um abraço.
Joaquim Oliveira, Maio de 2014

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