- Nehomanus -
Prólogo (Parte II)
Somente dois pisos acima, três figuras caminhavam
apressadamente em direcção à morgue. Este
corpo não deve ser autopsiado, como é que isto nos escapou? –
Questionava-se o homem no centro, sem revelar no seu rosto qualquer expressão
ou pensamento – Sobretudo numa fase tão
critica como a presente … décadas de trabalho deitado ao lixo… Entre os
três não havia qualquer comunicação, pois tal não era necessário. Cada um sabia
o que tinha de fazer. Chegando ao corredor da morgue aperceberam-se que as
luzes na mesma estavam acesas: Maldição,
já começou… - pensou Drake-Royston enquanto dava um breve sinal aos dois
homens que o acompanhavam. Num instante um deles virou-se de imediato de volta
para o corredor que tinham acabado de percorrer, enquanto o outro avançou para
além da entrada na morgue, cobrindo a direcção oposta. Desta forma ninguém
entraria no corredor sem ser detectado. Drake avançou para a porta.
***
Lynette não queria acreditar no que estava a ver, algo não
batia certo. A jovem retirou no total três amostras de sangue, cada uma de uma
parte diferente do corpo do idoso, e eram todas iguais. Aparentemente o sangue
deste homem não se parecia de todo com sangue. Era mais espesso, de um tom
cinza esverdeado e, por alguma razão, parecia emitir uma luz própria. Lyn
experimentou mesmo apagar as luzes e notou que, de facto, a amostra produzia
uma ténue luz num ambiente escuro. Poderia ser algum veneno? Ou resultado de
exposição a radiação? As diversas hipóteses que passavam pela sua cabeça
começavam a ser um misto de ciência com ficção e o espanto era tanto que
Lynette quase não se apercebeu que alguém estava a entrar, mas talvez a maior
surpresa, para ela, era quem estava a entrar na sala.
- Paul? Quero dizer, doutor Drake-Royston? O que faz aqui a
esta hora? – Tentou perguntar, admirada por ver o seu próprio chefe, enquanto a
questão do sangue anómalo ainda ecoava na sua mente. À sua frente estava nada
mais nada menos que o chefe de todo o departamento, Dr. P. Drake-Royston, como
costumava gostar de ser tratado durante as horas de expediente. O homem
mantinha uma expressão rígida e fria, mantendo o seu olhar fixo no corpo
deitado na mesa, tal como uma ave de rapina a observar uma potencial presa. Na
verdade, nem parecia ter reparado na sua jovem subordinada.
- Já retirou alguma amostra, menina…? – Lançou o velho
médico enquanto observava a sala à procura de algo, que acabara de encontrar:
os frascos com o sangue luminescente.
- Ainda não tive oportunidade para iniciar a autópsia
doutor, mas já tenho amostras suficientes para enviar para análises… -
Respondeu prontamente. O que faz ele
aqui? Sobretudo a esta hora? Este não é o seu turno… - Questionou-se,
enquanto esperava uma resposta da parte do seu superior. A única coisa em que reparou,
por um breve instante, foram os seus olhos que pareciam algo diferentes. Mas
antes de poder averiguar melhor, Dr. P. Drake-Royston estendeu a mão na sua
direcção e quase instantaneamente Lyn deu por si a ser projectada no ar contra
a parede, como se alguém a tivesse empurrado violentamente. Mas ninguém lhe
tocara. Por alguns instantes o mundo parou. Não ouvia nada e a sua visão estava
distorcida. À medida que começou a recuperar os sentidos sentiu algo húmido e
quente na cara e nas mãos. Com custo estendeu a mão, apesar de sentir todo o
seu corpo dorido, para poder ver do que tratava. Sangue, mas este era vermelho
e fluido, - sangue normal - apercebeu-se,
ainda recordando o sangue luminescente. De imediato apercebeu-se também que era
o seu sangue e que já havia muito espalhado. Entrou em choque, tentou gritar
por ajuda, mas nenhum som saía de si. Estendida no chão viu o seu superior a
guardar metodicamente todas as amostras que tinha recolhido numa mala, e que um
segundo sujeito estava a entrar na sala. Um
homem - isso deu logo para constatar, mas tirando isso era difícil
encontrar características suficientes para o descrever. Fato, gravata e óculos escuros … – Quem é este agora? –
Perguntou-se, enquanto a sua visão falhava novamente, para, n um segundo ou
dois, voltar ao normal. Enquanto a visão clareava, apercebeu-se que este outro estava a apontar uma arma a si.
Instintivamente levantou a mão para se proteger, embora soubesse que não valia
a pena. Apesar da perda de sangue a sua mente acelerou graças a um fluxo
repentino de adrenalina e tentou levantar-se, mas o único resultado desse
esforço foram fortes tremores e uma dor intensa pelo seu corpo. A sua mente
estava a ser invadida por milhares de pensamentos e memórias, tudo ao mesmo
tempo. Lyn tentou perguntar porquê, mas novamente não conseguia emitir nenhum
som. Ao reparar que o seu chefe lhe lançara um último olhar antes de abandonar
a sala é que conseguiu ver o que se passava com os seus olhos: Eram de um tom
semelhante ao sangue que recolhera do idoso, só que mais luminosos. O sangue! – Lembrou-se rapidamente e
logo compreendeu. As peças juntaram-se sozinhas: o que ali acontecera era algo
muito maior do que si ou do que uma autópsia q um mero velho a morto por causas
naturais. E tudo o que tinha visto provavelmente seria apenas a ponta do iceberg.
Mesmo que alguém tivesse estado por perto, não teria ouvido
o disparo abafado pelo silenciador. Só horas depois dariam com Lynette Hooper
num cenário macabro, numa sala de autópsias onde o único cadáver estava no chão
e não na mesa.
Fiquem por perto para novos devaneios.
Um abraço.
Joaquim Oliveira, Maio de 2014