quarta-feira, 14 de maio de 2014

Nehomanus (Prólogo - parte2)

Como prometido eis a segunda metade do prólogo de Nehomanus .... Haverá mais textos em breve.



- Nehomanus -



Prólogo (Parte II)


Somente dois pisos acima, três figuras caminhavam apressadamente em direcção à morgue. Este corpo não deve ser autopsiado, como é que isto nos escapou? – Questionava-se o homem no centro, sem revelar no seu rosto qualquer expressão ou pensamento – Sobretudo numa fase tão critica como a presente … décadas de trabalho deitado ao lixo… Entre os três não havia qualquer comunicação, pois tal não era necessário. Cada um sabia o que tinha de fazer. Chegando ao corredor da morgue aperceberam-se que as luzes na mesma estavam acesas: Maldição, já começou… - pensou Drake-Royston enquanto dava um breve sinal aos dois homens que o acompanhavam. Num instante um deles virou-se de imediato de volta para o corredor que tinham acabado de percorrer, enquanto o outro avançou para além da entrada na morgue, cobrindo a direcção oposta. Desta forma ninguém entraria no corredor sem ser detectado. Drake avançou para a porta.
***
Lynette não queria acreditar no que estava a ver, algo não batia certo. A jovem retirou no total três amostras de sangue, cada uma de uma parte diferente do corpo do idoso, e eram todas iguais. Aparentemente o sangue deste homem não se parecia de todo com sangue. Era mais espesso, de um tom cinza esverdeado e, por alguma razão, parecia emitir uma luz própria. Lyn experimentou mesmo apagar as luzes e notou que, de facto, a amostra produzia uma ténue luz num ambiente escuro. Poderia ser algum veneno? Ou resultado de exposição a radiação? As diversas hipóteses que passavam pela sua cabeça começavam a ser um misto de ciência com ficção e o espanto era tanto que Lynette quase não se apercebeu que alguém estava a entrar, mas talvez a maior surpresa, para ela, era quem estava a entrar na sala.
- Paul? Quero dizer, doutor Drake-Royston? O que faz aqui a esta hora? – Tentou perguntar, admirada por ver o seu próprio chefe, enquanto a questão do sangue anómalo ainda ecoava na sua mente. À sua frente estava nada mais nada menos que o chefe de todo o departamento, Dr. P. Drake-Royston, como costumava gostar de ser tratado durante as horas de expediente. O homem mantinha uma expressão rígida e fria, mantendo o seu olhar fixo no corpo deitado na mesa, tal como uma ave de rapina a observar uma potencial presa. Na verdade, nem parecia ter reparado na sua jovem subordinada.

- Já retirou alguma amostra, menina…? – Lançou o velho médico enquanto observava a sala à procura de algo, que acabara de encontrar: os frascos com o sangue luminescente.

- Ainda não tive oportunidade para iniciar a autópsia doutor, mas já tenho amostras suficientes para enviar para análises… - Respondeu prontamente. O que faz ele aqui? Sobretudo a esta hora? Este não é o seu turno… - Questionou-se, enquanto esperava uma resposta da parte do seu superior. A única coisa em que reparou, por um breve instante, foram os seus olhos que pareciam algo diferentes. Mas antes de poder averiguar melhor, Dr. P. Drake-Royston estendeu a mão na sua direcção e quase instantaneamente Lyn deu por si a ser projectada no ar contra a parede, como se alguém a tivesse empurrado violentamente. Mas ninguém lhe tocara. Por alguns instantes o mundo parou. Não ouvia nada e a sua visão estava distorcida. À medida que começou a recuperar os sentidos sentiu algo húmido e quente na cara e nas mãos. Com custo estendeu a mão, apesar de sentir todo o seu corpo dorido, para poder ver do que tratava. Sangue, mas este era vermelho e fluido, - sangue normal - apercebeu-se, ainda recordando o sangue luminescente. De imediato apercebeu-se também que era o seu sangue e que já havia muito espalhado. Entrou em choque, tentou gritar por ajuda, mas nenhum som saía de si. Estendida no chão viu o seu superior a guardar metodicamente todas as amostras que tinha recolhido numa mala, e que um segundo sujeito estava a entrar na sala. Um homem - isso deu logo para constatar, mas tirando isso era difícil encontrar características suficientes para o descrever. Fato, gravata e óculos escuros … – Quem é este agora? – Perguntou-se, enquanto a sua visão falhava novamente, para, n um segundo ou dois, voltar ao normal. Enquanto a visão clareava, apercebeu-se que este outro estava a apontar uma arma a si. Instintivamente levantou a mão para se proteger, embora soubesse que não valia a pena. Apesar da perda de sangue a sua mente acelerou graças a um fluxo repentino de adrenalina e tentou levantar-se, mas o único resultado desse esforço foram fortes tremores e uma dor intensa pelo seu corpo. A sua mente estava a ser invadida por milhares de pensamentos e memórias, tudo ao mesmo tempo. Lyn tentou perguntar porquê, mas novamente não conseguia emitir nenhum som. Ao reparar que o seu chefe lhe lançara um último olhar antes de abandonar a sala é que conseguiu ver o que se passava com os seus olhos: Eram de um tom semelhante ao sangue que recolhera do idoso, só que mais luminosos. O sangue! – Lembrou-se rapidamente e logo compreendeu. As peças juntaram-se sozinhas: o que ali acontecera era algo muito maior do que si ou do que uma autópsia q um mero velho a morto por causas naturais. E tudo o que tinha visto provavelmente seria apenas a ponta do iceberg.

Mesmo que alguém tivesse estado por perto, não teria ouvido o disparo abafado pelo silenciador. Só horas depois dariam com Lynette Hooper num cenário macabro, numa sala de autópsias onde o único cadáver estava no chão e não na mesa.


Fiquem por perto para novos devaneios.
Um abraço.
Joaquim Oliveira, Maio de 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O cavaleiro errante



Entras em todas as batalhas
de cabeça erguida
temendo não a morte em si,
mas antes uma morte só.
Vences,
mas para ti será sempre uma vitória vazia,
e começas a dirigir-te para a próxima.

És incapaz de chorar,
aliás não mostras qualquer sentimento.
Todos te vêm como frio e distante
na verdade não sabem o quanto sofres
não só porque não o mostras
mas sobretudo
porque sofres o que os outros sofrem.

Incapaz de verter uma única lágrima
suspiras para o vazio dentro de ti
sem ninguém para te ouvir
ou muito menos te consolar.

És um lobo solitário
e serás sempre,
faças o que fizeres,
digas o que disseres.
Estás marcado para a vida
silêncio e vazio rodeiam-te.

Se decidires desaparecer
ninguém te impedirá.
Não vale a pena olhares para trás,
ninguém te segue … ou chama
sequer

Não te iludas…



Fiquem por perto para novos devaneios.
 Um abraço.


Joaquim Oliveira, Maio de 2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Nehomanus (Prólogo - parte1)

Queria antes demais deixar um especial agradecimento a diversos amigos por terem lido e dado a sua opinião sobre este texto antes de o ter publicado (Inês Calçôa, Eliane Soares, Maria Ângela S. entre outros ...). Esta é somente a primeira parte, mais virão em breve... espero que gostem.


- Nehomanus -

Prólogo

Duas da manhã e Lynette ia já no quinto café do seu turno. Embora detesta-se o seu horário não tinha hipótese: era o membro mais novo do departamento. A recém doutora Lynette Hooper, ou simplesmente Lyn como já começava a ser chamada pelos seus colegas mais próximos, dirigia-se à morgue a fim de começar o segundo procedimento da noite, aparentemente algum idoso encontrado morto, sem qualquer sinal de agressão externa. O mais provável é que tenha simplesmente morrido de velhice… - pensou, acabando o resto do café. Mas a sua opinião não importava pois em breve a autópsia iria revelar a verdadeira causa de morte. Antes de entrar na sala já se tinha livrado do copo de café, respeitando a norma que proibia o consumo quer de comida quer de bebida nesse espaço, com o objectivo de ser reconhecida como boa profissional, ao contrário do doutor Adams, um dos de topo, que era conhecido dentro do departamento por desrespeitar essa mesma regra, e talvez no futuro tal viria a ser uma mais-valia a favor de Lyn, e quem sabe talvez esse futuro poderia estar próximo. Todos sabiam que Paul, o chefe do departamento, iria reformar-se em breve e a corrida pelo lugar já tinha começado. Embora Lynette soubesse que não podia concorrer a esse posto, era certo que quem quer que viesse a tornar-se o novo chefe iria deixar o anterior posto livre, e essa seria uma oportunidade de ouro para Lyn subir na carreira.

- Acaba-se esta porcaria de turnos de noite… - tinha reflectido assim que soube - … e poderei ter um horário decente, tal como uma pessoa normal…

Deu consigo a olhar para o seu próximo paciente e ficou surpresa. Tinham-lhe dito que se tratava de um idoso, mas assim que o viu pareceu-lhe ainda mais velho que isso. O homem deitado na mesa de autópsia tinha um aspecto mais seco e gasto do que alguma vez vira em alguém. Lyn só conseguia imaginar que para alguém ter chegado a esse ponto teria de viver pelo menos duas vidas, se não mais. É claro que isso era um disparate, raciocinou de imediato, o mais provável é que este velhote nunca cuidou devidamente do seu aspecto ao longo da sua vida, e que tal se reflectia no seu aspecto pós-morte. Ou talvez fosse parte do motivo por detrás da sua morte, contrapôs de imediato, sentido finalmente alguma curiosidade pelo trabalho em que acabara de pegar.

- Curioso - disse para si mesma - … talvez esta noite não venha ser assim tão má.

Assim que verificou todo o material, iniciou a gravação via auricular. À medida que avançava a autópsia ia falando para o microfone, para registar tudo no relatório mais tarde. Entretanto, começara a retirar algumas amostras para o laboratório de análises. Durante esse tempo, Lyn aproveitou para observar o corpo do idoso, para além de alguns sinais típicos de velhice como verrugas, nada mais havia a observar à superfície, nada de arranhões ou cicatrizes.


- Nenhum ferimento superficial, nem nenhum sinal de hematomas no corpo… - reportou para o seu auricular - … não parece existir evidência alguma de agressões... Deve ser mais um caso de ataque cardíaco… - pensou para si mesma evitando comunicar ao microfone qualquer suposição sem antes ter provas para apoiar a mesma - … vou só tirar uma amostra de sangue do paciente antes de proceder à autópsia propriamente dita. No entanto, nada em toda a sua experiência a preparara para o que estava prestes a testemunhar.



Fiquem por perto para novos devaneios.
Um abraço.
Joaquim Oliveira, Maio de 2014